segunda-feira, 10 de março de 2014

Insensatez da infância

Há dois episódios que minha memória alcança de extrema insensibilidade e mesmo crueldade da minha parte para com outros. Por vezes é difícil digerir lembranças tão barbaramente impalatáveis, com um eu em tão torta construção naqueles dois momentos.

Ambos são de praticamente uma mesma época, algum lugar do tempo entre meus 10 e 12 anos - como se vê, nem tão infância assim, apesar de ainda predominante. Apesar da relutância em descrever tais atos, creio que seja hora de expô-los a fim de vomitá-los e, assim, expurgá-los de minha essência.

Trataram-se de episódios que culminaram em uma profunda análise de consciência, que me fizeram posteriormente divergir transversalmente do rumo que seguia meu ideário moral. Tais análises se fizeram imperativas pelas reações às minhas ações, que, pela coragem e humilhação, provocaram sentimentos de nojo e aversão própria dentro de mim.

Seria a "culpa da burguesia"? Talvez sim. Afinal, sou entusiasta da noção de que nossos maiores ideais não são determinados por uma construção racional própria, mas uma série de emoções que vivemos ao longo da vida que se misturam à nossa moral e formam uma visão singular de mundo. Não acredito que ideias se invalidem por partirem de uma culpa interna, ou qualquer outro sentimento moralista que seja. Creio, de fato, que esses sentimentos sejam pré requisitos para as ideias que defendemos.

Reluto ao expor os tais atos. Farei-o cruamente, de modo que não há de se esperar prazer e agradabilidade na leitura.

Ou não, talvez eu não esteja pronto para descrever os episódios. Desculpe, nenhuns leitores, não será dessa vez que me mostrarei cruelmente falho.

O que ficou de impalpável

Ah, lembro-me de como a perda sempre me foi apresentada como agressão, um assalto ao desejo, mas há salto nessa compreensão. A falta que ficou foi a parte mais insignificante de todo incongruente sentimento gerado pela intimidade arrancada de nossa uníssona presença. A beleza do caos se impôs sobre qualquer definição possível de sensação palpável, ao menos distinguível no mar revolto no qual me afoguei ao mergulhar para longe de ti.

Os sonhos gelados, talvez, de líquido torpor foram a principal marca de nossa confusa apartação, cujos insistentemente calorosos suores se impuseram como reflexo físico de um nunca tranquilo sono. O alvorecer se fez úmido, mas a noite é sempre fria.


Desculpe a demora, pois tardei em adormecer. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desgosto

Desgosto de poucas pessoas. Desgosto de certos discursos.

Desgosto daqueles que não valorizam a vida, de quem quer que seja. Desgosto de discursos de condicionamento da dignidade humana.

Desgosto daqueles que não não vêem importância na cultura. Desgosto de discursos que a utilizam como distinção social.

Desgosto de qualquer discurso que coloque um ser humano como superior ou mais digno da felicidade e do conforto que outro. Suspeito da ideia de meritocracia, que embasa tantos desses discursos.

Desgosto de qualquer discurso que legitime a morte, seja de burgueses, vândalos, aristocratas ou golpistas. A subjetividade humana deve ser preservada acima de qualquer valor ou ideal. Suspeito da ideia de coletivismo, que embasa tantos desses discursos.

Mas, afinal, depois de tantos d's, devo dizer que amo toda e qualquer sociedade em sua complexidade, seja ela injusta ou perversa. A mudança é endógena, sempre.

Apesar de alguns desgostos, amo descobrir tudo que todo ser humano ama e por quê. O amor é o que destrói qualquer maniqueísmo, qualquer impulso contra a subjetividade. O amor é o que converge a humanidade, social e espiritualmente.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Letras amargas

Diante da fria indiferença pelas letras que um dia escrevi no ar para só você ouvir, decidi dar cabo a toda sensação provocada pela sua lembrança, levando a mim mesma o maior dos dizeres surdos já sentidos em grama rasa por você.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Margem de insignificância

Foste muito pelo pouco sobre o qual se colocara. Nada pelo indefinido escurecer, que se ilumina inteiro com o menor ponto de luz. 

Descobri o quão profundo é o abismo da solidão quando me vi mais unida a você. Foi com sua presença dentro de mim que passei a temer o permanente vazio. 

Sua existência insignificou meu ser.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pedaços guardados

A saudade acata (ataca) de tempos em tempos, de sorte que a nostalgia se instala, derramada sobre meu corpo que você tão apreciadamente beijava. Encontrei-me ao largo pesado de uma inexistência fria, gestada na ausência de seus lábios, nascida em doloroso e barulhento parto.

Mas não parto, me parto em pedaços para não me apartar da sua fragmentada lembrança, já embaçada por tantas lágrimas nas quais mergulharam meus olhos, minha boca, meu rosto. Sou e ainda serei parte de tudo aquilo que você foi para mim, enxugada de uma gorda inexpressão, mas ainda encontrando um canto nessa apertada existência de duas inconstantes presenças.

Perdão pelas incongruentes rimas que por ventura aparecem, teimosas em se fazerem notadas, como se urgissem por serem incômodo, apenas para saberem que ali se encontram. Nada posso fazer contra tamanha ânsia de ser.

Ainda hei de rabiscar mais para dar vazão à saudade, mas hoje já não escreverei mais, creio ter me esgotado a força para continuar remontando os pedaços que guardei de ti.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Seguindo em frente

Percebo, por vezes, que tenho esse vício, essa fobia de qualquer retrocesso que seja, mesmo que a fim de avançar posteriormente. Sinto-me em eterna marcha forçada para qualquer direção indefinida, sem opção de rever meus passos, refazer meu caminho já trilhado. Mesmo olhar para trás se faz inconveniente, como se flerte com os já cometidos erros, ansiando por serem revisitados.

Sigo sempre em um incongruente sentido à frente de mim, mesmo que com curvas e despenhadeiros, novas pedras, novos erros.

Meu medo é apenas estar andando em círculos.