sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Questões que nunca resolverei

Afinal, o poder, tal qual ele é hoje, é um crime?

Poderiam aqueles em hierarquias superiores nas injustas instituições reformá-las? Ou a verdadeira mudança se dá apenas de baixo para cima?

É possível um Papa/Presidente dos pobres? Ou ele está apenas dialogando com aqueles que os aprisionam na pobreza?



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Enquanto sufocado esperava, sua mente transitava, como se também acorrentada, naquela prisão de calor e umidade que ofegante respirava. Não era intensão rimar.

- Sorte nossa perdermos boa parte da vida nessas miudezas - seu pensamento assim se esboçava.

Ensaiou levantar-se, mas se percebeu preso ao feltro da cadeira pela camada de suor que colava suas costas à manchada camisa que amaldiçoava usar. De quando em quando ria de sua própria miserável condição, cômica de tão patética imobilidade. Estava aprisionado por nem ao menos saber se desejava mover-se. Em algum momento, no entanto, sabia que o chamariam. O momento, no entanto, parecia ainda marinar por entre algum ponto distante de um tempo líquido que ele sabia não poder beber, pois sua garganta se fecharia com um grito surdo de medo. Era alérgico ao tempo.

Por vezes passava ligeiro seu olhar por entre as miudezas daquele cômodo, àquelas a parecer tão ansiosamente desejar que aqueles desmomentos de vez caíssem com seu peso sobre o desagradável ambiente, como se eternamente esperados. Em raras ocasiões ensaiou dirigir-lhes qualquer palavra de desagrado ou enfado, talvez até um comentário sobre uma nova tragédia matinal, mas sua voz minguava ao se empurrar pela língua, chegando à miudeza daquelas com as quais teria falado.    

Sentia enfim algo a adentrar a sala, empenhada com um frio pesado a se colocar em volta da vaga luz branca que porcamente iluminava o ambiente. Era a noite que entrava, como se tímida, a se mostrar por suas sutilezas. Encarava-a com um misto de curiosidade infantil e apatia, mas se aliviou com a redução do calor.

- Até que horas ficarei aqui? - perguntava-se desinteressado

Voltou a olhar aos números vermelhos que se prostravam diante da pequena multidão enfileirada naquela diminuta sala, todas na mesma monotonia fria, ainda que de quando em quando algum tipo resolvesse falar no celular, quebrando o ensurdecedor silêncio protagonizado pelo fraco mais barulhento ventilador no teto. Sem grande surpresa, percebeu que seria o próximo a ser chamado.

Não demorou muito mais até que os números que retirara algumas horas antes aparecessem no painel, fazendo-o se levantar de seu já eterno retiro, chegando em direção ao guichê indicado. Como se sua espera tivesse sido tão banal quanto um cisco no olho - o que tinha acontecido durante aquele tempo - a mulher por trás do balcão lhe estendeu a mão segurando enfim o que viera buscar. Voltava a ter então sua identidade.




Cuidado ao jogar as cartas para mim, amor
Perco a vista nos distantes futuros a navegar
sobre o mar de sua lágrima, salgada,
que me liberta, mas também me ancora
Nessa pesada rocha que, de tão leve, me fez fluir
Para ti.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ridiculosidade

Não preciso parar muito para pensar no tamanhos dos privilégios que me são concedidos devido a onde e como nasci. Branco, rico, homem, a lista é longa de toda posição de poder que me é involuntária e injustamente ofertada, da qual muitas vezes me beneficio, querendo ou não.

Meu desejo é muitas vezes de saber o que é estar em outra posição, em sofrer do pressuposto contrário: de que você é ladrão, vadia, vagabundo, por aí vai... A ridiculosidade, no entanto, é evidente, e logo percebo que muitos simplesmente desejariam estar efetivamente na minha posição, quando eu, no máximo, gostaria de fazer um tour pelo outro lado.

Buscar uma outra sociedade, no meu caso, é mais que um imperativo moral, é um imperativo pessoal, de modo a não me sujeitar mais a tais pensamentos ridículos.

Ainda assim, nunca deixo de rir de mim mesmo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O futuro olha para mim por poucos segundos com bons olhos, mas em instantes vira o rosto para mirar no olhar de outrem.

Daquele breve tempo vejo um primeiro lampejo de algo para além do vazio. Da continuidade fria à qual já há muito me acostumei, posso crer haver algo mais.

Assumir o timão de um navio à deriva pode ser estimulante, mas é de fato perigoso. É preciso pela primeira vez saber para onde se deseja ir, estar sujeito aos próprios erros e más direções.

Ainda que por fim, sim, vale a pena sofrer mais por seus erros que pelos de outros.

Os únicos erros dos quais me arrependo foram de quando dividimos o mesmo navio.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

De um tão breve anoitecer

Passa-se a noite e vejo você



De um ainda longo amanhecer

Trago-me doenças. Ventanias maculadas a passar pelo meu corpo nu nada mais são que meu próprio sopro.

Nada mais são que meu próprio sopro.
Nada mais louco que meu próprio corpo.

Vieses tamanhas a entorpecer o pensar se jogam soltas esperando por quem as pegar. Pobre ainda é a rima, mas talvez eu ria de quem me julgar.

Continuo rindo, pois não estou sozinho.