O telefone, então, toca. Eu, ainda abismado com as formiguinhas, sou arrancado de minha realidade paralela, confinado novamente pelo simples barulho de uma chamada. Zango-me e saio de meu trono. Arrasto-me pelo apartamento, guiado pelo maldito toque, até que, finalmente, encontro o telefone. Imaginei quantas vezes ele tocaria naquele dia. Não seria menos de cinco, mas também não muito mais de dez. Ou, pelo menos, assim esperava.
Atendo. A voz que me cumprimenta parece distante, vaga. Zonzo, retorno o bom dia e agradeço pelos “parabéns” sem ter ideia de quem possa estar me concedendo tais honras. Calculo a intensidade da voz. Não pode ser alguém muito conhecido, caso contrário, hesitaria menos. Seria um amigo antigo? Não sei, não me vem à cabeça qualquer nome que possa me ser útil no reconhecimento da pessoa.
Tempo, pelo visto, não lhe falta, pois cerca de dez minutos se passam e a incógnita teima em falar sem que eu descubra seu valor. Os assuntos, todavia, são diversos. O homem parece ser uma ótima companhia, tendo em vista sua capacidade de pular do mais simples futebol (o qual desprezo) aos mais intrínsecos ramos da política (a qual da mesma forma não me agrada). Se bem me recordo, o que garanto ser improvável, assuntos como mulheres e casos desconhecidos também estiveram presentes.
São, por fim, dadas as despedidas e, aliviado, desligo o telefone sem ter cometido nenhuma falta com o homem cuja voz não fora por mim reconhecida. As perguntas, felizmente, foram escassas e, quando houve, vieram de mim, tendo como objetivo a fuga de uma incongruência na conversa com meu desconhecido amigo. Grande amigo, ele. Pena que me escapara seu nome.
Revelo, assim, ao leitor o primeiro telefonema do meu aniversário. No que parece um cômico caso de amnésia momentânea, esconde-se uma flecha de dúvida direcionada à minha pessoa, certeiramente atingida pela arma. Ponho-me a divagar que homem tão simpático era aquele que me ligara.
A dúvida, porém, finda apenas meses depois. Hoje, nesse exato instante, sei quem era o portador da voz que me assolou com o questionamento sem resposta.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Divagação...
Enquanto o ser humano se impôr no poder sobre todas as outras formas de vida do universo, estaremos aprisionados em nossa triste ilusão de soberania, escravizando a nós mesmos em um mundo virtual, isolado da realidade na qual estamos inseridos.
Não se preocupe, leitor, essa é apenas uma divagação...
Não se preocupe, leitor, essa é apenas uma divagação...
Onze Minutos
Restam-me apenas onze minutos. “Para quê?”, pergunta o leitor. A paciência, porém, é aliada ao homem e aqueles que, por ignorância, renunciam a essa virtude devem, sem remorso algum, findar a leitura desse texto. Não me é bem vindo esse desventurado leitor, hoje viciado nas narrativas rápidas e constantes, que se deixa aprisionar pela literatura miserável, com a qual se consagram falsos escritores.
Finalizada essa questão, gostaria eu de retornar à afirmação inicial. Onze minutos, são os que faltam. Se não, menos, afinal, passam-se os segundos a cada segundo e, assim, escasseiam-se os minutos, extinguindo-se por fim e cedendo aos valores menores, porém cheios de gorduras temporais que, da mesma maneira, se queimam durante a corrida do tempo.
Onze minutos, pode contar, leitor? Sua leitura não passará dessa marca e, caso contrário, pode alegremente considerar-se um besta. Mas, provavelmente, aqueles que levariam mais tempo do que o por mim estabelecido já se afastaram desse texto. Se restar, porém, algum imbecil que desventuradamente continua a ler, possivelmente por teimosia, superficialmente esses períodos, aviso-lhe desde já que não se interessará por nada daqui. O leitor medíocre só encontrará nessas linhas o tédio e a monotonia, o que será de meu profundo agrado.
Onze minutos, e finalmente revelo ao leitor paciente (ou não) o objetivo dessa marca. Onze minutos para o fim. “Fim?”, questiona o leitor, e afirmo novamente: “O fim!”. Afinal, ao contrário do que se pensa, é de fins que se constitui a vida. Discorda? Pois muito bem, não esperava que o leitor pudesse superar suas mesquinhas limitações transcender à verdade. Por isso, provarei nos próximos parágrafos minha afirmação anterior.
Devo, porém, aqui fazer uma interjeição. Espero que se tenha percebido que no primeiro período desse parágrafo não adicionei formalidades inúteis e hipócritas, como “, caso me permita o leitor, ”. Não me atrevo a, pelo menos dessa forma, enganar aquele passa os olhos por essas letras. Esse é meu texto, escrito por mim. Eu imponho ao paciente leitor tudo que pode me vir à mente. Não é do meu feitio pedir permissão a algo que não obterei resposta. É uma redundância inversa, uma incongruência que tem se apresentado invariavelmente de toda a nova geração de falsos (ou até de verdadeiros) escritores. Esse parágrafo serve para explicitar ao leitor que tudo que aqui colocarei é-lhe imposto por mim e, assim que começar a entender o como é meu prisioneiro e se incomodar com o fato, aconselho-lhe que abandone o texto, pois só assim se verá livre do meu domínio.
Retorno, assim, a revelação dos fins. Não pedirei perdão ao leitor por ter-me dado por filósofo, impondo-lhe algo que provavelmente não é de seu agrado. Obviamente estou ciente da nova prostituição da filosofia, tendo se precedido sua rejeição, obrigando-a a esse novo cargo de concubina das ciências, adepta apenas por aqueles cujos cabelos já passaram dos joelhos. Começarei, finalmente, a explicação do que foi afirmado anteriormente.
A vida é feita de três fases, que se iniciam com começos e terminam com fins. Não ria o leitor que passa os olhos por essas afirmações, logo verá a lógica simples de minha ideia.
Temos como primeira fase, que se dá logo depois do nascimento, a infância, a juventude, na qual se começa um mundo inteiro novo, destacando-se o berço, os brinquedos e os estudos. Os fins começam cedo, com o fim da berço, logo em seguida, o fim dos brinquedos, e o mesmo se dá, finalmente, com os estudos, marcando o término da fase jovem.
Temos, portanto, a fase adulta, com o começo das responsabilidades, destacando-se o trabalho, o casamento e a família. Dessa vez, a fase dura muito, com o primeiro fim após apenas muitos anos. Primeiro se dá o fim do casamento, já estagnado e sem o amor dos primeiros tempos. Logo em seguida, vem o fim da família, com o provável divórcio, a morte dos pais e o crescimento dos filhos. O término da fase adulta, porém, se dá com o fim do trabalho.
É a vez agora da fase idosa. É difícil destacar os começos de anos que precedem o verdadeiro fim. Mas podemos talvez destacar aqui as leituras, as caminhadas e o sossego. Temos então, logo o fim das caminhadas, interrompidas pela fadiga. Em seguida, vem o fim das leituras, com a catarata, o cansaço dos olhos. O sossego finaliza quando o idoso já é afetado pelas dores pelo corpo, a enxaqueca, as ininterruptas tosses.
O último fim, como deve já saber o leitor, é o fim da vida.
É assim que termino a explicação de minha teoria. Contraponho com ela a hipócrita visão de mundo na qual a vida é feita de lutas e conquistas, absurdo incompreensível do pensamento humano. O leitor, provavelmente estupefato, deve agora entender porque se teme a velhice, porque se anseia a maturidade. Será a partir das vertentes do meu trabalho inicial que se darão outras diversas explicações para a realidade.
O leitor besta, acostumado à literatura medíocre, que eventualmente chegou até aqui, pode se considerar menos imbecil. É seu dever agora entrar na verdadeira leitura, proporcionados pelos verdadeiros escritores. Caso não o faça, espero que pelo menos esteja ciente de sua incongruente estupidez. Antes compreender a próprio mediocridade do que viver ignorando seu male maior.
Onze minutos. O leitor chegou até aqui para entender essa marca temporal. Onze minutos para o fim. Para o fim do texto. Para o fim da teoria. Para o fim da vida. Minha vida.
Finalizada essa questão, gostaria eu de retornar à afirmação inicial. Onze minutos, são os que faltam. Se não, menos, afinal, passam-se os segundos a cada segundo e, assim, escasseiam-se os minutos, extinguindo-se por fim e cedendo aos valores menores, porém cheios de gorduras temporais que, da mesma maneira, se queimam durante a corrida do tempo.
Onze minutos, pode contar, leitor? Sua leitura não passará dessa marca e, caso contrário, pode alegremente considerar-se um besta. Mas, provavelmente, aqueles que levariam mais tempo do que o por mim estabelecido já se afastaram desse texto. Se restar, porém, algum imbecil que desventuradamente continua a ler, possivelmente por teimosia, superficialmente esses períodos, aviso-lhe desde já que não se interessará por nada daqui. O leitor medíocre só encontrará nessas linhas o tédio e a monotonia, o que será de meu profundo agrado.
Onze minutos, e finalmente revelo ao leitor paciente (ou não) o objetivo dessa marca. Onze minutos para o fim. “Fim?”, questiona o leitor, e afirmo novamente: “O fim!”. Afinal, ao contrário do que se pensa, é de fins que se constitui a vida. Discorda? Pois muito bem, não esperava que o leitor pudesse superar suas mesquinhas limitações transcender à verdade. Por isso, provarei nos próximos parágrafos minha afirmação anterior.
Devo, porém, aqui fazer uma interjeição. Espero que se tenha percebido que no primeiro período desse parágrafo não adicionei formalidades inúteis e hipócritas, como “, caso me permita o leitor, ”. Não me atrevo a, pelo menos dessa forma, enganar aquele passa os olhos por essas letras. Esse é meu texto, escrito por mim. Eu imponho ao paciente leitor tudo que pode me vir à mente. Não é do meu feitio pedir permissão a algo que não obterei resposta. É uma redundância inversa, uma incongruência que tem se apresentado invariavelmente de toda a nova geração de falsos (ou até de verdadeiros) escritores. Esse parágrafo serve para explicitar ao leitor que tudo que aqui colocarei é-lhe imposto por mim e, assim que começar a entender o como é meu prisioneiro e se incomodar com o fato, aconselho-lhe que abandone o texto, pois só assim se verá livre do meu domínio.
Retorno, assim, a revelação dos fins. Não pedirei perdão ao leitor por ter-me dado por filósofo, impondo-lhe algo que provavelmente não é de seu agrado. Obviamente estou ciente da nova prostituição da filosofia, tendo se precedido sua rejeição, obrigando-a a esse novo cargo de concubina das ciências, adepta apenas por aqueles cujos cabelos já passaram dos joelhos. Começarei, finalmente, a explicação do que foi afirmado anteriormente.
A vida é feita de três fases, que se iniciam com começos e terminam com fins. Não ria o leitor que passa os olhos por essas afirmações, logo verá a lógica simples de minha ideia.
Temos como primeira fase, que se dá logo depois do nascimento, a infância, a juventude, na qual se começa um mundo inteiro novo, destacando-se o berço, os brinquedos e os estudos. Os fins começam cedo, com o fim da berço, logo em seguida, o fim dos brinquedos, e o mesmo se dá, finalmente, com os estudos, marcando o término da fase jovem.
Temos, portanto, a fase adulta, com o começo das responsabilidades, destacando-se o trabalho, o casamento e a família. Dessa vez, a fase dura muito, com o primeiro fim após apenas muitos anos. Primeiro se dá o fim do casamento, já estagnado e sem o amor dos primeiros tempos. Logo em seguida, vem o fim da família, com o provável divórcio, a morte dos pais e o crescimento dos filhos. O término da fase adulta, porém, se dá com o fim do trabalho.
É a vez agora da fase idosa. É difícil destacar os começos de anos que precedem o verdadeiro fim. Mas podemos talvez destacar aqui as leituras, as caminhadas e o sossego. Temos então, logo o fim das caminhadas, interrompidas pela fadiga. Em seguida, vem o fim das leituras, com a catarata, o cansaço dos olhos. O sossego finaliza quando o idoso já é afetado pelas dores pelo corpo, a enxaqueca, as ininterruptas tosses.
O último fim, como deve já saber o leitor, é o fim da vida.
É assim que termino a explicação de minha teoria. Contraponho com ela a hipócrita visão de mundo na qual a vida é feita de lutas e conquistas, absurdo incompreensível do pensamento humano. O leitor, provavelmente estupefato, deve agora entender porque se teme a velhice, porque se anseia a maturidade. Será a partir das vertentes do meu trabalho inicial que se darão outras diversas explicações para a realidade.
O leitor besta, acostumado à literatura medíocre, que eventualmente chegou até aqui, pode se considerar menos imbecil. É seu dever agora entrar na verdadeira leitura, proporcionados pelos verdadeiros escritores. Caso não o faça, espero que pelo menos esteja ciente de sua incongruente estupidez. Antes compreender a próprio mediocridade do que viver ignorando seu male maior.
Onze minutos. O leitor chegou até aqui para entender essa marca temporal. Onze minutos para o fim. Para o fim do texto. Para o fim da teoria. Para o fim da vida. Minha vida.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Cap. 1: Sonho
- Matamos o tempo, o tempo nos enterra – Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.
Sonhava estranhamente. É bem verdade que nunca tivera sonhos exatamente normais, porém aquele, logo aquele...
No começo havia apenas o nada. Se for necessária uma alusão, é bom que se pense no gênesis, antes de Deus, por algum enorme equívoco, dar início à criação. Em seguida, vejo a luz vermelha preenchendo todo o espaço. Palpitando irregularmente, a cor ofusca-me com sua vibração inerente. De repente, o escarlate absorve a realidade. Não só o vejo, mas o cheiro, ouço, toco, sinto. A sinestesia me atordoa e tento agachar-me e apoiar-me no chão. Percebo, então, que não há chão, braços ou pernas. Havia só o escarlate. Eu era o escarlate.
Encolho-me, de súbito, concentrando-me inteiro em um único ponto. À minha volta, nascem grandes colunas, semelhantes a obeliscos. Acho, então, estar girando, pois minha visão se move circularmente. Mas o erro é logo notado. Tudo roda, tudo gira, apenas eu permaneço parado.
E essa inércia acelerada permanece, com o constante movimento das colunas, que começam a apresentar fragilidade. Na minha eterna imobilidade, vejo, repetidamente, tudo desabar sobre mim. A situação, obviamente, é acompanhada pela quinta sinfonia de Beethoven.
Sonhava estranhamente. É bem verdade que nunca tivera sonhos exatamente normais, porém aquele, logo aquele...
No começo havia apenas o nada. Se for necessária uma alusão, é bom que se pense no gênesis, antes de Deus, por algum enorme equívoco, dar início à criação. Em seguida, vejo a luz vermelha preenchendo todo o espaço. Palpitando irregularmente, a cor ofusca-me com sua vibração inerente. De repente, o escarlate absorve a realidade. Não só o vejo, mas o cheiro, ouço, toco, sinto. A sinestesia me atordoa e tento agachar-me e apoiar-me no chão. Percebo, então, que não há chão, braços ou pernas. Havia só o escarlate. Eu era o escarlate.
Encolho-me, de súbito, concentrando-me inteiro em um único ponto. À minha volta, nascem grandes colunas, semelhantes a obeliscos. Acho, então, estar girando, pois minha visão se move circularmente. Mas o erro é logo notado. Tudo roda, tudo gira, apenas eu permaneço parado.
E essa inércia acelerada permanece, com o constante movimento das colunas, que começam a apresentar fragilidade. Na minha eterna imobilidade, vejo, repetidamente, tudo desabar sobre mim. A situação, obviamente, é acompanhada pela quinta sinfonia de Beethoven.
Cap. 2: Acordando
O sonho, então, se interrompeu. Acordei naquela manhã, sob a pálida luz do nascer do Sol, esfregando longamente os olhos. Esquecera novamente a janela aberta. Muito esperei deitado até perceber que o sono não retornaria. Sentei-me sobre a cama, de cabeça baixa, tentando lembrar de tudo que passara. Sim, claro. Era meu aniversário.
Lembrei-me aos poucos da data da qual tentava fugir, desesperado. No dia três de Setembro de 2007, completava exatamente cinquenta e cinco anos e via no espelho do quarto todos os meus fios de cabelo grisalhos. A primeira vista, tal fato não agrega tamanha importância, mas, durante toda minha vida, meu cabelo, de exuberantes mechas onduladas e escuras, foi o maior expoente de minha escassa beleza. Não foi sem motivos que sempre o conservei volumoso, embora não longo, o que eu realmente desprezo em um homem.
Retornando ao fato, estava eu a observar-me de frente ao espelho, procurando qualquer fio negro que fosse, sem êxito algum. Tal foi minha energia em achá-lo, que, do meu despertar até o momento em que percebi que só acharia o cinza naquelas mechas, tinham-se passado cerca de quarenta minutos, o que um infeliz leitor há de concordar que não é pouco.
Suspirei longamente, decepcionado com a falha da busca, imaginando se não seria tempo de artificializar-me. Porém, logo após poucos instantes, descartei a hipótese, não compreendendo como poderia tê-la nela pensado. Caminhei pesadamente até a janela e apoiei-me ao parapeito. Por alguns instantes fiquei a observar a extensa Praia de Copacabana, admirando-a e culpando-a pelas minhas olheiras. Abaixei a cabeça, olhando para o nada.
Vislumbrei, de súbito, algumas pessoas caminhando pela calçada da praia. Pequenas pessoinhas a andar pelo asfalto, em um horário extremamente inconveniente (acredito que não passavam das seis e meia da manhã). Tamanha incongruência atordoava-me, e acabei por devanear o que motivava aqueles seres a agirem de tal maneira, tão bizarra, tão... disposta. Eram poucas, é bem verdade, mas o suficiente para vê-las como um grupo desorganizado de formigas, vagando sem rumo para esquerda e direita, a fim de encontrar algum caminho. Creio que aquela situação enquadrava-se melhor a mim, mas a relação não foi entendida no momento em que ocorreu. Estava demasiadamente entretido nas formiguinhas para pensar em assuntos tão complexos.
Lembrei-me aos poucos da data da qual tentava fugir, desesperado. No dia três de Setembro de 2007, completava exatamente cinquenta e cinco anos e via no espelho do quarto todos os meus fios de cabelo grisalhos. A primeira vista, tal fato não agrega tamanha importância, mas, durante toda minha vida, meu cabelo, de exuberantes mechas onduladas e escuras, foi o maior expoente de minha escassa beleza. Não foi sem motivos que sempre o conservei volumoso, embora não longo, o que eu realmente desprezo em um homem.
Retornando ao fato, estava eu a observar-me de frente ao espelho, procurando qualquer fio negro que fosse, sem êxito algum. Tal foi minha energia em achá-lo, que, do meu despertar até o momento em que percebi que só acharia o cinza naquelas mechas, tinham-se passado cerca de quarenta minutos, o que um infeliz leitor há de concordar que não é pouco.
Suspirei longamente, decepcionado com a falha da busca, imaginando se não seria tempo de artificializar-me. Porém, logo após poucos instantes, descartei a hipótese, não compreendendo como poderia tê-la nela pensado. Caminhei pesadamente até a janela e apoiei-me ao parapeito. Por alguns instantes fiquei a observar a extensa Praia de Copacabana, admirando-a e culpando-a pelas minhas olheiras. Abaixei a cabeça, olhando para o nada.
Vislumbrei, de súbito, algumas pessoas caminhando pela calçada da praia. Pequenas pessoinhas a andar pelo asfalto, em um horário extremamente inconveniente (acredito que não passavam das seis e meia da manhã). Tamanha incongruência atordoava-me, e acabei por devanear o que motivava aqueles seres a agirem de tal maneira, tão bizarra, tão... disposta. Eram poucas, é bem verdade, mas o suficiente para vê-las como um grupo desorganizado de formigas, vagando sem rumo para esquerda e direita, a fim de encontrar algum caminho. Creio que aquela situação enquadrava-se melhor a mim, mas a relação não foi entendida no momento em que ocorreu. Estava demasiadamente entretido nas formiguinhas para pensar em assuntos tão complexos.
Cap. 3: Erro
Peço desculpas a algum leitor que, por imensa desventura, iniciara a leitura deste texto. De fato, creio tê-lo começado errado. Por um inexplicável motivo, contrariei princípios básicos meus tendo escrito as linhas precedentes a esse parágrafo. Explicarei a seguir ao leitor. Espero que, uma vez que já se lera até aqui, possa-se pelo menos entender meu erro nas próximas linhas e abandonar satisfatoriamente o texto.
Acredito que, no início de qualquer escrita, deve-se sempre explicar o motivo da mesma, justamente o que não realizei e pelo que suplico perdão. Em realidade, se me fosse possível, pegaria outra folha de papel e recomeçaria novamente. Infelizmente, essa possibilidade não me é concedida.
Vejo também que adicionei certos aspectos estranhos ao texto. Não gosto de poetizar, sou averso a lirismos, mas quando o leitor lê “sob a pálida luz do nascer do Sol” não duvida da intensão do autor de frutificar sua estória, dar-lhe aromas e cores, algo do qual tento me afastar. Jurei a mim mesmo que escreveria de forma crua, sem floreios. A falha, no entanto, dá-se logo nos primeiros períodos, em um importante entre vírgulas do meu texto. Analiso facilmente a ridicularização do ato.
A origem do erro, porém, devo afirmar que é legítima. Há tempos tenho essa imagem na minha cabeça, atormentando-me constantemente durante meu refúgio. Lembro-me visivelmente daquela luz ofuscante, como se transparente, incomodando meus olhos. Uma das mais belas vistas do mundo e um dos piores modos de acordar unidos em uma única situação. A praia de Copacabana é linda, de fato, mas não muito conveniente quando lhe foge a mente a necessidade de fechar a cortina antes de dormir.
O eventual leitor que, por algum infortúnio, continuou a leitura provavelmente se pergunta nesse momento se o motivo da escrita é, realmente, a imagem do nascer do dia no meu aniversário repetindo-se na minha mente, retornando quase que como em um curto círculo. Não, pelo menos não de todo. É fato que essa maldita manhã impulsionou-me a apressar-me a escrever o relato, porém já tinha essa ideia na cabeça há tempos.
São vários os motivos pelos quais resolvi contar minha estória. Um deles, o mais sério, é avisar à sociedade de um mau livre, rondando escondidamente pelas ruas do Rio de Janeiro. É preciso, sim, que o desventurado leitor saiba de minhas vergonhas passadas para que entenda a crítica situação à qual cheguei e a injustiça a qual sofri, justamente a inversa que se deu sobre o mau que continua a vagar pelos bueiros da população carioca.
O segundo motivo, o qual também devo dizer, é restabelecer a confiança em minhas memórias, que vêm decepcionando-me ao se enrolarem em várias voltas e amarras. Creio que, pela necessidade de organiza-las para escrever partes da minha vida, acabo colocando-as em ordem, podendo novamente adentrá-las sem medo de me perder em devaneios absurdos, o que vem ocorrido com frequência.
O resto, caso o infortunado leitor deseje continuar a leitura (e aqui se encontra um inevitável pleonasmo), será revelado.
Acredito que, no início de qualquer escrita, deve-se sempre explicar o motivo da mesma, justamente o que não realizei e pelo que suplico perdão. Em realidade, se me fosse possível, pegaria outra folha de papel e recomeçaria novamente. Infelizmente, essa possibilidade não me é concedida.
Vejo também que adicionei certos aspectos estranhos ao texto. Não gosto de poetizar, sou averso a lirismos, mas quando o leitor lê “sob a pálida luz do nascer do Sol” não duvida da intensão do autor de frutificar sua estória, dar-lhe aromas e cores, algo do qual tento me afastar. Jurei a mim mesmo que escreveria de forma crua, sem floreios. A falha, no entanto, dá-se logo nos primeiros períodos, em um importante entre vírgulas do meu texto. Analiso facilmente a ridicularização do ato.
A origem do erro, porém, devo afirmar que é legítima. Há tempos tenho essa imagem na minha cabeça, atormentando-me constantemente durante meu refúgio. Lembro-me visivelmente daquela luz ofuscante, como se transparente, incomodando meus olhos. Uma das mais belas vistas do mundo e um dos piores modos de acordar unidos em uma única situação. A praia de Copacabana é linda, de fato, mas não muito conveniente quando lhe foge a mente a necessidade de fechar a cortina antes de dormir.
O eventual leitor que, por algum infortúnio, continuou a leitura provavelmente se pergunta nesse momento se o motivo da escrita é, realmente, a imagem do nascer do dia no meu aniversário repetindo-se na minha mente, retornando quase que como em um curto círculo. Não, pelo menos não de todo. É fato que essa maldita manhã impulsionou-me a apressar-me a escrever o relato, porém já tinha essa ideia na cabeça há tempos.
São vários os motivos pelos quais resolvi contar minha estória. Um deles, o mais sério, é avisar à sociedade de um mau livre, rondando escondidamente pelas ruas do Rio de Janeiro. É preciso, sim, que o desventurado leitor saiba de minhas vergonhas passadas para que entenda a crítica situação à qual cheguei e a injustiça a qual sofri, justamente a inversa que se deu sobre o mau que continua a vagar pelos bueiros da população carioca.
O segundo motivo, o qual também devo dizer, é restabelecer a confiança em minhas memórias, que vêm decepcionando-me ao se enrolarem em várias voltas e amarras. Creio que, pela necessidade de organiza-las para escrever partes da minha vida, acabo colocando-as em ordem, podendo novamente adentrá-las sem medo de me perder em devaneios absurdos, o que vem ocorrido com frequência.
O resto, caso o infortunado leitor deseje continuar a leitura (e aqui se encontra um inevitável pleonasmo), será revelado.
Cap. 4: Medíocre
Sou um homem medíocre, e não vejo por que não fazer tal afirmação. Minha vida, estagnada e previsível, finaliza-se com um desfecho quase que idiota (peço desculpas pela insubstituível expressão). Devido ao meu excesso de confiança, no fim, tive-me só, podendo contar apenas comigo mesmo. Minha morte, obviamente, não se deu fisicamente, mas creio que minha mente já está, há muito, enterrada, cremada, polvorizada.
A mediocridade, e é certa a próxima afirmação, não é a origem de todos os males. Como dito anteriormente, sofri de uma enorme injustiça, a qual só poderá ser revelada no fim. Caso o leitor não possua a paciência necessária para ler tamanho monotonismo, deve-se avançar até o fim do relato, no qual revela-se um desfecho menos sufocante do que o resto do texto. Todavia, aquele que prefere sujeitar-se à minha imbecil estória, poderá compreender (à custa de uma enorme avalanche de tédio) melhor como se deu meu atual quadro.
A mediocridade, e é certa a próxima afirmação, não é a origem de todos os males. Como dito anteriormente, sofri de uma enorme injustiça, a qual só poderá ser revelada no fim. Caso o leitor não possua a paciência necessária para ler tamanho monotonismo, deve-se avançar até o fim do relato, no qual revela-se um desfecho menos sufocante do que o resto do texto. Todavia, aquele que prefere sujeitar-se à minha imbecil estória, poderá compreender (à custa de uma enorme avalanche de tédio) melhor como se deu meu atual quadro.
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