Tempo virado

Tempo virado
Questões de Francesca

domingo, 16 de abril de 2017

No início de Agosto

Edifício assim, pesado
Arranha o céu de estrelas
Edifício, cinza, sem cor
Feito de concreto gelado

Foi no início de Agosto
Que se ergueu um Edifício
Desde então, Edifício assim
Só eu vejo, a contragosto

E vai passar uma estação
para o primeiro aniversário
Edifício, às vezes frio
E chegará ao centenário

  

domingo, 9 de abril de 2017

A(in)daptação

Hoje acordei cedo, como de costume, e decidi pegar minha bicicleta.

Tornei meu domingo um dia de hábitos. Toda semana, nesse dia, pedalo pelo menos duas vezes pelo Aterro do Flamengo, terminando o trajeto na feira da Glória, onde religiosamente compro meu gomo de tapioca, suco de abacaxi com hortelã, batata doce e por vezes uma caixa de uva, tudo junto por menos de 20 reais.

Termino a manhã comprando um açaí no Hortifrutti do lado da minha casa. Chegando, faço uma faxina, escrevo no quadro minhas tarefas para a semana e brinco um pouco com a Mia. Até as duas, termino todo esse percurso para poder, enfim, pensar no que fazer durante o dia.

Nunca fui a pessoa mais tagarela da minha família ou círculo de amigos. Pelo contrário, sempre expressei melhor minhas opiniões e sentimentos por meio da palavra escrita do que falada. Creio que isso tenha por vezes incomodado aqueles à minha volta.

No entanto, o silêncio que experiencio quando acordo no Domingo até o fim da minha faxina é algo para o qual eu nunca fui preparado. Por mais que troque alguns "bom dia"s, ou palavras avulsas com quem estiver me acompanhando na pedalada, meu existir até a tarde é silencioso. Ainda que pudesse ser um devir contemplativo ou reflexivo, seu hei de ser se basta pela pouca necessidade de troca de palavras nas atividades realizadas.

Já faz quase seis meses desde que vivo assim, mas ainda acredito estar em uma eterna fase de adaptação. Tudo que sinto nesse meio tempo parece transitivo, como se líquido, um rio a correr rumo a algum destino.

Há momentos em que concluir é o que devo menos fazer.
Olho em volta e vejo esse vazio volvendo meu devir.


domingo, 12 de março de 2017

Enquanto Mia, minha gata, me observa virando sua cabeça na minha direção, deitada em cima do meu short jogado no chão do quarto, escrevo esse texto após assistir a uma temporada inteira de Love, no Netflix.

Love é uma série despretensiosa, mas que conseguiu capturar com graciosidade no início - e crueldade no fim - o relacionamento de duas pessoas quaisquer. Com seus episódios lentos, retratando o dia a dia de cada um, fui testemunhando o acúmulo de erros de ambos um com o outro, as brigas estúpidas, o afastamento progressivo, até descambar na inevitável separação do casal.

 Às vezes ainda me impressiono com a capacidade de destruição de fortes laços com tão evitáveis e desorientadas ações, aparentemente facilmente contornáveis, mas que no fim acabam por capturar absolutamente tudo no relacionamento, de modo que no fim se torna impossível voltar ao ponto de onde tudo estava dando certo.

A vida nos traz esperanças e sonhos quase que naturalmente, mas sem aviso prévio, e cabe a nós apenas torná-los realidade. Todos os fracassos subsequentes das tentativas ao longo dos anos nos tornam mais sábios, mas possivelmente também mais amargos.

Não resta mais dor, apenas arrependimentos.
Não há mais saudade, apenas nostalgia.
Não há mais amor, apenas sua lembrança.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Começo de temporada

No final do ano passado, grandes ciclos da minha vida se fecharam, e dando lugar a outros novos. Quase tudo que eu entendia como parte de mim chegou a um desfecho, de modo a dar início a uma outra grande fase em minha vida.

Agora, nesse momento, sinto esse primeiro trimestre como um começo de temporada, ou início de um livro de franquia, no qual ainda estão se apresentando os novos elementos e reintroduzindo os antigos. As tramas principais, a narrativa da história, estes ainda estão por começar.

Eu, é claro, ao perceber isso, não pude deixar de ficar ansioso pelo fim dessa fase de minhas novas histórias. Impaciente que sou, já me cansei da calmaria desse começo de temporada.

Que venham logo os erros e problemas, porque quero enfrentá-los.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Disse que não escreveria aqui mais.

Naquele momento, sentia-me no fim de um ciclo que, depois de tanto dedicar esse espaço a você, seria preciso encerrá-lo quando encerramos nossa história.

Mas do que vale a história frente a um sentimento permanente?

Do que vale o fim de um ciclo diante de um espaço infinito que se segue sendo o que ainda persistentemente sinto por você?

Hoje me é possível conviver harmoniosa com essa sua estranha ausência ao meu lado. É-me possível até ficar exultante com sua bem sucedida trajetória longe de mim.

Não há do que me libertar. Não estou preso a esse sentimento.

Escolhi mantê-lo comigo. Aprendi a ser feliz com ele.

domingo, 7 de agosto de 2016

Eu e você

Nosso amor foi uma grande cachoeira. 

O gelo da água me despertava e aguçava meus sentidos, e a queda foi sempre a adrenalina que me fazia querer sempre mais. Eu não me importava para onde ia, contanto que fosse com você. 

Não sei se será ainda possível acreditar que essa cachoeira tenha secado. Minha vida se define por esse caminho d'água que trilhei com você. 

Não pretendo mais escrever nesse blog. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sobre minha moral

Sempre tive uma ideia forte de que buscava fazer o bem. Não que o fizesse sempre, mas tinha sempre esse desejo. Não sei em que ponto todos pensam assim - tenho dúvidas até se alguns pensam sobre isso -, mas desde que me lembro por mim, repensava minha moral em torno de não fazer mal aos outros, a fim de honrar essa ideia.

Hoje, porém, me encontro em total confusão sobre se tenho seguido a moral que considero correta. Nessa manhã percebi que minhas ações há tempos estão sem qualquer tipo de limite da minha consciência. Não que eu não me sinta culpado posteriormente, mas não consigo dizer não antes de agir, e acabo por - não intencional, mas conscientemente - prejudicar outras pessoas.

Estou em absoluta confusão quanto a isso. Hoje, creio que farei mas bem do que mal se voltar estritamente ao que considero correto, de modo que me vejo obrigado a ir contra minha moral para que possa retornar a ela no longo prazo.

Meu medo, porém, é de não achar o caminho de volta.