Tempo virado

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Questões de Francesca

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desgosto

Desgosto de poucas pessoas. Desgosto de certos discursos.

Desgosto daqueles que não valorizam a vida, de quem quer que seja. Desgosto de discursos de condicionamento da dignidade humana.

Desgosto daqueles que não não vêem importância na cultura. Desgosto de discursos que a utilizam como distinção social.

Desgosto de qualquer discurso que coloque um ser humano como superior ou mais digno da felicidade e do conforto que outro. Suspeito da ideia de meritocracia, que embasa tantos desses discursos.

Desgosto de qualquer discurso que legitime a morte, seja de burgueses, vândalos, aristocratas ou golpistas. A subjetividade humana deve ser preservada acima de qualquer valor ou ideal. Suspeito da ideia de coletivismo, que embasa tantos desses discursos.

Mas, afinal, depois de tantos d's, devo dizer que amo toda e qualquer sociedade em sua complexidade, seja ela injusta ou perversa. A mudança é endógena, sempre.

Apesar de alguns desgostos, amo descobrir tudo que todo ser humano ama e por quê. O amor é o que destrói qualquer maniqueísmo, qualquer impulso contra a subjetividade. O amor é o que converge a humanidade, social e espiritualmente.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Letras amargas

Diante da fria indiferença pelas letras que um dia escrevi no ar para só você ouvir, decidi dar cabo a toda sensação provocada pela sua lembrança, levando a mim mesma o maior dos dizeres surdos já sentidos em grama rasa por você.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Margem de insignificância

Foste muito pelo pouco sobre o qual se colocara. Nada pelo indefinido escurecer, que se ilumina inteiro com o menor ponto de luz. 

Descobri o quão profundo é o abismo da solidão quando me vi mais unida a você. Foi com sua presença dentro de mim que passei a temer o permanente vazio. 

Sua existência insignificou meu ser.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pedaços guardados

A saudade acata (ataca) de tempos em tempos, de sorte que a nostalgia se instala, derramada sobre meu corpo que você tão apreciadamente beijava. Encontrei-me ao largo pesado de uma inexistência fria, gestada na ausência de seus lábios, nascida em doloroso e barulhento parto.

Mas não parto, me parto em pedaços para não me apartar da sua fragmentada lembrança, já embaçada por tantas lágrimas nas quais mergulharam meus olhos, minha boca, meu rosto. Sou e ainda serei parte de tudo aquilo que você foi para mim, enxugada de uma gorda inexpressão, mas ainda encontrando um canto nessa apertada existência de duas inconstantes presenças.

Perdão pelas incongruentes rimas que por ventura aparecem, teimosas em se fazerem notadas, como se urgissem por serem incômodo, apenas para saberem que ali se encontram. Nada posso fazer contra tamanha ânsia de ser.

Ainda hei de rabiscar mais para dar vazão à saudade, mas hoje já não escreverei mais, creio ter me esgotado a força para continuar remontando os pedaços que guardei de ti.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Seguindo em frente

Percebo, por vezes, que tenho esse vício, essa fobia de qualquer retrocesso que seja, mesmo que a fim de avançar posteriormente. Sinto-me em eterna marcha forçada para qualquer direção indefinida, sem opção de rever meus passos, refazer meu caminho já trilhado. Mesmo olhar para trás se faz inconveniente, como se flerte com os já cometidos erros, ansiando por serem revisitados.

Sigo sempre em um incongruente sentido à frente de mim, mesmo que com curvas e despenhadeiros, novas pedras, novos erros.

Meu medo é apenas estar andando em círculos.