Tempo virado

Tempo virado
Questões de Francesca

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Enquanto sufocado esperava, sua mente transitava, como se também acorrentada, naquela prisão de calor e umidade que ofegante respirava. Não era intensão rimar.

- Sorte nossa perdermos boa parte da vida nessas miudezas - seu pensamento assim se esboçava.

Ensaiou levantar-se, mas se percebeu preso ao feltro da cadeira pela camada de suor que colava suas costas à manchada camisa que amaldiçoava usar. De quando em quando ria de sua própria miserável condição, cômica de tão patética imobilidade. Estava aprisionado por nem ao menos saber se desejava mover-se. Em algum momento, no entanto, sabia que o chamariam. O momento, no entanto, parecia ainda marinar por entre algum ponto distante de um tempo líquido que ele sabia não poder beber, pois sua garganta se fecharia com um grito surdo de medo. Era alérgico ao tempo.

Por vezes passava ligeiro seu olhar por entre as miudezas daquele cômodo, àquelas a parecer tão ansiosamente desejar que aqueles desmomentos de vez caíssem com seu peso sobre o desagradável ambiente, como se eternamente esperados. Em raras ocasiões ensaiou dirigir-lhes qualquer palavra de desagrado ou enfado, talvez até um comentário sobre uma nova tragédia matinal, mas sua voz minguava ao se empurrar pela língua, chegando à miudeza daquelas com as quais teria falado.    

Sentia enfim algo a adentrar a sala, empenhada com um frio pesado a se colocar em volta da vaga luz branca que porcamente iluminava o ambiente. Era a noite que entrava, como se tímida, a se mostrar por suas sutilezas. Encarava-a com um misto de curiosidade infantil e apatia, mas se aliviou com a redução do calor.

- Até que horas ficarei aqui? - perguntava-se desinteressado

Voltou a olhar aos números vermelhos que se prostravam diante da pequena multidão enfileirada naquela diminuta sala, todas na mesma monotonia fria, ainda que de quando em quando algum tipo resolvesse falar no celular, quebrando o ensurdecedor silêncio protagonizado pelo fraco mais barulhento ventilador no teto. Sem grande surpresa, percebeu que seria o próximo a ser chamado.

Não demorou muito mais até que os números que retirara algumas horas antes aparecessem no painel, fazendo-o se levantar de seu já eterno retiro, chegando em direção ao guichê indicado. Como se sua espera tivesse sido tão banal quanto um cisco no olho - o que tinha acontecido durante aquele tempo - a mulher por trás do balcão lhe estendeu a mão segurando enfim o que viera buscar. Voltava a ter então sua identidade.




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